Constituição do Comité Europeu de Ligação das Forças de Resistência contra a guerra militar – contra a guerra social
Cara(o) subscritor do Apelo internacional pelo “Fim à guerra”,
Representantes de 16 países europeus (Alemanha, Portugal, França, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Grécia, Irlanda, Itália, Áustria, Bélgica, Noruega, Roménia, Sérvia, Suécia e Suíça) reuniram-se, por videoconferência, a 30 de Setembro, tendo formalizado a constituição do “Comité de Ligação Europeu contra a Guerra, contra a Guerra Social”.
O Comité decidiu realizar uma iniciativa internacional a 24 de Fevereiro, aniversário do início desta fase da guerra na Ucrânia, perspectivando mobilizações unitárias em todos os países. Diversos oradores deram conta de várias mobilizações em curso. Isto numa altura em que os governos estão a preparar orçamentos de guerra e, portanto, cortes nas despesas sociais.
Os camaradas alemães informaram que está a ser organizada uma grande manifestação em Berlim, no dia 25 de Novembro. Noutros países, está a ser considerada a possibilidade de organizar mobilizações em torno desta data.
Divulgamos em anexo a introdução do debate pelo camarada Gotthard Krupp em nome da IAA – Comissão Alemã contra a guerra militar, contra a guerra social.
E também enviamos a intervenção do representante português nessa videoconferência de 30 de Setembro, Pedro Soares, membro da Convergência e dirigente do Bloco de Esquerda.
Abraço fraterno
Pel’O Grupo de acção português de dinamização da campanha internacional pelo “Fim à guerra”
Joaquim Pagarete
Constituição do Comité Europeu de Ligação das Forças de Resistência contra a guerra militar – contra a guerra social
INTRODUÇÃO (EXTRACTOS)
Por Gotthard Krupp, sindicalista alemão, membro do Comité editorial do SoPoDe
“Temos de evitar que centenas de milhares de outros jovens, operários e camponeses sejam mortos”.
Tenho o prazer de estar a receber lutadores pela paz, de 16 países europeus, que aceitaram o convite para formar um Comité de Ligação Europeu “contra a guerra militar – contra a guerra social”.
Gostaria de vos recordar as nossas reivindicações comuns, em torno das quais nos unimos na Conferência Europeia de 8 de Julho:
– Pelo cessar-fogo imediato e negociações!
– Não ao envio de armas!
– Não aos orçamentos para o armamento e a guerra!
– Levantamento das sanções!
– Nem NATO nem Putin!
– “Não à guerra militar – Não à guerra social”!
– Não aos orçamentos de guerra de várias centenas de biliões! Esses biliões devem ser canalizados para hospitais, escolas, autarquias locais…
– Para a defesa dos salários reais (aumentados de acordo com a inflação)!
– Congelamento geral dos preços!
A exigência de um “cessar-fogo imediato e incondicional” é importante. 500.000 mortos e soldados russos e ucranianos gravemente feridos. É preciso pôr fim imediatamente a este massacre bárbaro.
Temos de evitar que centenas de milhares de outros jovens, trabalhadores e camponeses da Ucrânia e da Rússia sejam mortos. Esta guerra não é deles! Cada vez mais soldados ucranianos e russos estão a desertar e a fugir do seu país, e nós compreendemo-los.
O Secretário-Geral da NATO, Stoltenberg, repete: “Temos de nos preparar para uma longa guerra na Ucrânia” e declara aos países da NATO – em sintonia com os EUA – que a guerra deve ser travada até que a Rússia seja derrotada.
Os EUA fornecem mísseis Atacms e a Alemanha está prestes a ultrapassar a linha vermelha ao enviar mísseis de cruzeiro Taurus para a Ucrânia.
As armas de guerra, no valor de milhares de milhões, são financiadas por uma política de austeridade drástica contra os hospitais, as escolas e todos os outros serviços públicos e infra-estruturas sociais. E isto numa altura em que a pobreza e a miséria social estão a alastrar em todos os países da Europa.
Com a sua política de sanções contra a Rússia, os EUA estão a alimentar a guerra económica contra os países europeus: desindustrialização, destruição massiva de empregos, como estamos a ver na Alemanha, por exemplo, na indústria automóvel e na indústria química.
Isto também está a levar a conflitos e confrontos entre países da NATO. Como no caso da decisão do Governo polaco de limitar o fornecimento de armas à Ucrânia, no âmbito da “guerra dos cereais”.
Nos EUA, a burguesia norte-americana está a passar por uma crise profunda e a mostrar divisões. Apesar das intervenções de Biden e de Zelensky na ONU, a Índia, a África do Sul e o Brasil, entre outros, não alteraram a sua posição e não estão a participar na campanha global contra a Rússia.
Agora estamos num momento de lutas defensivas das populações, das classes trabalhadoras e da juventude, contra os governos que desencadeiam a guerra militar e a guerra social.
Na Conferência europeia de 8 de Julho, foi possível estabelecer as primeiras ligações entre as forças de resistência contra a guerra.
Na luta contra a guerra e o fornecimento de armas, nós confrontamo-nos, nas nossas organizações e nos partidos que dizem ser do movimento operário – mas também e sobretudo nos sindicatos – a partes das direcções que se submetem às exigências dos governos.
Fui delegado ao Congresso federal do Ver.di, o segundo maior sindicato da Alemanha. O Congresso foi determinado pela vontade de 10.000 camaradas do sindicato de rejeitar a tentativa do Comité director de unir o sindicato Ver.di como uma força única de apoio à política de guerra do Governo.
Embora o Comité director tenha conseguido ter a maioria na votação final, um terço dos delegados votaram a favor de um cessar-fogo, da suspensão do fornecimento de armas, contra a política de sanções e o armamento para a guerra. A partir de agora, a luta contra a guerra não pode continuar a ser abafada no seio do sindicato. E isso dá-nos coragem!
Mobilizações contra a guerra, organizadas no mesmo dia em todos os países, poderiam permitir-nos exprimir – de uma forma mais visível – a força e a determinação da luta e consolidar a confiança no poderio da resistência à guerra. Mesmo que, nalguns países, as forças ainda sejam limitadas ou estejam apenas a começar a unir-se.
Três propostas para debate
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Na Alemanha, uma grande manifestação irá ter lugar, no próximo dia 25 de Novembro – por ocasião da adopção do Orçamento de guerra pelo Parlamento. Sahra Wagenknecht será uma das oradoras. Ela foi a primeira deputada a levantar a voz no Bundestag, em Setembro passado, contra a política de guerra e de destruição social do governo de Scholz.
Entretanto, os governos da maioria dos países da NATO na Europa vão pôr os orçamentos à votação nos seus parlamentos, isto é, os orçamentos de guerra para 2024.
Será que podemos aproveitar esta situação para organizar, por exemplo, acções ou assembleias contra a adopção desses orçamentos de guerra?
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O dia 24 de Fevereiro assinala o segundo aniversário do início da guerra. Não seria este aniversário uma oportunidade para mobilizar as forças de resistência à guerra, em todos os países em que estamos representados, através de um apelo conjunto do Comité de Ligação Europeu para manifestações/reuniões no dia (ou em relação a esse dia)?
Temos em conta que a definição exacta de acção a desenvolver é deixada à decisão dos camaradas do Comité de Ligação Europeu no respectivo país.
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Uma tarefa específica seria a de preparar uma Conferência europeia (presencial) “contra a guerra militar – contra a guerra social”, em Berlim, em Março de 2024 – tal como foi decidido na Conferência Europeia de 8 de Julho.
Deveríamos considerar a possibilidade de convidar, sempre que possível, representantes de outros países a participarem em manifestações ou comícios que sejam realizadas num dado país.
Estas são as primeiras propostas. A discussão está totalmente aberta.
E finalmente: a Comissão de coordenação alemã será responsável pela divulgação das decisões tomadas hoje, para informar todos os militantes empenhados na luta contra a guerra militar – contra a guerra social.”
INTERVENÇÃO DE PEDRO SOARES (PORTUGAL) NA REUNIÃO DE 30 DE SETEMBRO PARA CONSTITUIÇÃO DO COMITÉ DE LIGAÇÃO EUROPEU CONTRA A GUERRA
Em nome dos activistas portugueses pela Paz, saúdo todos os companheiros e companheiras aqui reunidos para a formação do Comité de Ligação Europeu Contra a Guerra.
Terão início dentro de 1 hora, em várias cidades portuguesas, manifestações pelo direito à habitação, numa inédita acção conjugada dos movimentos que exigem casas para viver e movimentos ambientalistas que lutam por medidas sérias para enfrentar a crise climática. Esta a razão pela qual a nossa participação nesta reunião será limitada.
A guerra na Ucrânia prolonga-se e parece não ter fim. As consequências são dramáticas, desde logo para as pessoas directamente afetadas, mas, na verdade, esta guerra sem sentido afecta-nos a todas/os.
Não desligamos esta guerra e os interesses que a suportam da decisão do Banco Central Europeu de continuar a subida das taxas de juros com consequências na erosão salarial, num processo de empobrecimento que está a atingir vastos sectores da população, os mais vulneráveis, e os trabalhadores em geral.
A condenação que fazemos da invasão da Ucrânia pela Federação Russa é, e tem sido desde o início, inequívoca. Nem tomaremos qualquer atitude que procure atenuar as responsabilidades do regime de Putin na inadmissível invasão militar do território de um Estado soberano.
Com a mesma firmeza, não estamos disponíveis para branquear o percurso da NATO na progressão para Leste, estabelecendo um cerco militar à Rússia, igualmente um país soberano. Uma recente intervenção do secretário-geral da NATO, o senhor Stoltenberg, no início do mês, no Parlamento Europeu, veio confirmar essa estratégia que implicou a recusa da neutralidade da Ucrânia.
O facto é que a tão propalada unidade da União Europeia sobre a política para a guerra, muito enfatizada pela senhora von der Lyen, está a esboroar-se, com a recente demarcação da Polónia e da Eslováquia. São brechas que se abrem.
Sabemos que estas manobras e contradições se enquadram nas disputas entre blocos económicos e militares pela hegemonia mundial, mas essa é uma disputa que não traz nada de bom à maioria da população mundial, que acaba sempre por ser quem mais sofre nas suas condições de vida.
A nossa inequívoca condenação da invasão da Ucrânia não nos deve impedir de ter a clareza de considerar que não há solução militar para esta guerra, como está a ser demonstrado pelo impasse criado no campo de batalha. O seu prolongamento está a provocar uma enormidade de vítimas militares e civis, de um e de outro lado do conflito.
A denúncia do autocrático regime de Putin e a condenação da invasão da Ucrânia não nos obriga a qualquer compromisso com o antidemocrático regime ucraniano, que persegue e reprime as oposições, ilegaliza partidos e sindicatos, alimenta a corrupção, persegue cidadãos e envia-os para a frente de batalha como carne para canhão. Lutaremos por “Putin fora da Ucrânia e a NATO fora da Europa”, com a exigência de um cessar-fogo imediato, o estabelecimento de um plano para a paz, como o presidente Inácio Lula da Silva tem vindo a defender, e a solidariedade com o povo e com quem continua a lutar pela paz, pela liberdade e democracia na Ucrânia.
Repudiamos a recente visita do Presidente da República de Portugal à Ucrânia e a condecoração com a Ordem da Liberdade do presidente ucraniano, a qual nos envergonhou. Esta visita destinou-se a defender o prolongamento da guerra, o fornecimento de armas que assegure a continuação do conflito, a exaltação de Zelensky e do seu regime, e a expansão da NATO a Leste com a integração da Ucrânia naquela organização militar agressiva.
Somos pela Paz! Contribuiremos para o reforço do movimento internacional pelo fim da escalada armamentista e do conflito militar. Apoiamos solidariamente, na medida das nossas forças, a constituição do Comité de Ligação Europeu contra a Guerra. Defendemos a convocação, logo que possível, de uma iniciativa à escala europeia de mobilização popular em defesa da Paz!
Obrigado e bom trabalho.
